segunda-feira, 21 de março de 2016

Honestidade

Um dos valores fundamentais da humanidade nunca esteve tão ameaçado. Trata-se da honestidade. Essa qualidade é perseguida por pessoas e empresas e precisa ser usada em momentos felizes e tristes. Embora manter essa qualidade tenha um preço, ser honesto é ter a consciência de que nem tudo que se pensa pode deva ser expresso.

Ter sensibilidade e empatia são fundamentais serem associados a honestidade para que todos possam viver em harmonia. Porém, ser honesto mesmo que signifique magoar alguém é preciso ter presente que esse principio é mais eficaz que sustentar uma mentira.

Com isso, fica evidente que a honestidade nasce do compromisso assumido consigo mesmo. Uma cidadão honesto exerce a sua idoneidade ao ser verdadeiro no caminho profissional e pessoal. Mas mesmo aos honestos a humildade sempre precisa estar presente, pois como seres históricos todos cometemos erros e reconhecer equívocos é sinônimo de coragem.

Hoje o conceito de honestidade está deturpado e pessoas que querem agir de forma correta, geralmente, sofrem chacotas ou mesmo humilhados. É triste escutar durante conversas informações com pessoas de diferentes classes sociais que se estivessem no “poder” como os políticos das mais diferentes esferas também “roubariam”.

A honestidade é a subordinação integral às regras morais vigentes. Honestidade não se negocia. O dito popular de que o “ladrão faz a ocasião” pelo viés moral não possui valor nenhum. Afinal de contas, quem decide roubar ou furtar, o decidiu fazer antes da oportunidade aparecer.

Por conta disso, Brasil afora é comum exemplos de honestidade virarem notícia. Quando a honestidade não deveria ser notícia, mas hábito. Ser honesto é uma provocação nos diferentes espaços sociais. A honestidade é fruto do amor e do respeito para si mesmo e para os outros. Mas mesmo assim, o bom de tudo é saber que em muitas cidades a honestidade ainda é a princípio, não a exceção. Ainda bem.

Instituição escola ameaçada

A escola, como instituição ocidental moderna, perde poder no mundo líquido. O termo cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman explica a sua própria maneira pós-moderna o fracasso das grandes ideologias. Mesmo nesse mundo interligado e conturbado credito grande poder as instituições, mas é também imprescindível que ocorra uma renovação na forma de associar e transmitir o conhecimento. Ficar centrado no modelo industrial do século XVIII - com carteiras enfileiradas e apenas uma voz dominante - é passado. Apesar dos docentes concordarem com essa medida, poucos pensam em estratégias para conseguir a atenção do aluno.

Imaginar que essa ação será conseguida por meio da repressão é tempo de outrora. Na escola moderna ou em períodos ditatórias reprender os jovens era possível, mas não eficiente. Quando a dita autoridade se afastava da vigilância do grupo atrocidades era a consequência. Apenas na negociação, na exposição da realidade é que a expressão “vigiar e punir”, de Michel Foucault, deixará de ser a tônica da relação.

Imaginar que estudante interage com todo o seu potencial em aulas em que se mistura slides ou vídeos é pouco provável. Isso tudo os meios de comunicação e a internet fazem de forma magistral. É preciso professores com empatia, mas acima de tudo que não transmitam o conhecimento como forma de vencer o conteúdo. É preciso um professor que tenha a opinião. Que saiba moderar debates na turma envolvendo a realidade local e o regional. Alunos querem um profissional democrático e que saiba projetar as consequências dessas medidas no dia a dia.

Existe um verdadeiro perigo a vista sobre a nova função da escola. Muitas disciplinas – por meio dos diversos legislativos - são incorporadas no currículo. Interferências legais na pedagogia são uma realidade, porém nada disso, pode ser usado como pretexto para deixar os aprendizes sem as explicações para o mundo. É provável que o aluno esteja exposto a mais informação em apenas um dia sobre uma ação especifica do que o professor na mesma situação na naquela idade.

Aqui não é uma crítica ao profissional professor, mas a lenta resposta dos governos para melhorar a didática das aulas a partir da reformulação dos currículos das universidades. É uma crítica a maioria das instituições de ensino superior que não usam da premissa que inserir conteúdo local na formação dos futuros docentes. Uma crítica aos estados ditos democráticos de direito que enfraquecem a educação, aumentam a burocracia, para aumentarem seu controle sobre cidadão, como destaca Karl Weber (1864-1920).

Um profissional que tem potencial para voltar a ser uma marca no cotidiano dos estudantes precisa receber mais atenção em todos os momentos da concepção universitária, da atuação e formação continuada. Assim o novo modelo educacional, curricular e pedagógica é a reafirmação da necessidade da emancipação cidadã que envolva todos os atores envolvidos para finalmente alcançar a grande meta da pátria educadora.

O controle social em uma distópia

O filme O Doador de Memórias trata de uma comunidade futura isolada das demais, em que seus governantes erradicaram a violência, as diferenças sociais e as doenças para conseguirem superar a dor e o sofrimento. Se abdicou de recordações, costumes, cores ou mesmo as da ação do tempo - do sol forte, de neve ou de fortes ventanias. A película apesar de ser um percursor do gênero Young Adult, aborda momentos importantes que são reflexivos mesmo para os dias atuais.

A sociedade foi estruturada ainda em novo núcleo familiar. Nessa narrativa, que se passa em um futuro distópico, os bebês são separados de seus pais biológicos e criado por pais adotivos. Além disso, a questão de gênero deixou de ter importância. Na “sociedade perfeita” cidadãos vivem dia após dia em harmonia, ordenados e privados de sentimentos. Ninguém possui motivação para escolhas ou mesmo questionamentos e todos são encarregados de uma função específica.

A revolta ao sistema começa na descoberta da diferença entre sentimentos e emoções. A narrativa provoca nossa consciência social ao tentar ensina que pessoas são impossíveis de controlar. A narrativa indica que é necessário aceitar as diferenças. Assim voltamos aos conceitos de moral e ética, combater de forma consciente o individualismo permite uma convivência orgânica salutar, mas não a partir da imposição do controle. Ainda fica evidente que o domínio sobre o acesso ao conhecimento – desde livros ou mesmo ferramentas para conhecer a história – são indicações de uma população controlada.

Por fim, o filme “O Doador de Memórias” foi adaptação do best-seller “O Doador” de Lois Lowry. O impresso foi lançado em 1993. Já o filme, nos Estados Unidos, foi em 2014 sob o nome de The Giver. O livo passou a ser obrigatória em escolas norte-americanas por seguir uma narrativa mais filosófica por contribuir com a compreensão social.

domingo, 20 de março de 2016

O mito da infância

A fronteira entre a criança e o adulto é a tônica do filme “A Caça” do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Uma história seca, crua e até brutal, segue o drama de um professor falsamente acusado de abuso sexual em uma escola infantil. Porém, ao longo do filme se percebe que o episódio é na verdade uma vingança da menina que teve a atenção mais afetiva recusada pelo profissional. Na película fica claro que a criança vive em um ambiente familiar conturbado, em que recebe pouca atenção dos pais e que os irmãos mais velhos são bastante desregrados.

O filme provoca diversas discussões, das quais a comoção popular, o estigma criminal e mesmo a pureza infantil. Afinal de contas, mentiras como a abordada na narrativa levam a ruína de reputações e provocam o linchamento moral. Essas ações e a forma como essa mentira pode se espalhar rápida são meticulosamente abordados. Vinterberg consegue criar de forma fenomenal todo um clima de uma lenta contaminação dos sentimentos, valores e relações.

Verdades e mentiras nesse contexto podem rapidamente, por algumas palavras, provocar diversas mudanças no coletivo. O clamor popular por uma crescente penalização está intimamente ligado com a ascensão do estigma criminal. Fica evidente como a razão coletiva sempre é afetada em prol em favor da atrocidade, mesmo em sociedades ditas descentes e intelectuais, como a dinamarquesa. Mesmo em sociedades como essas as vezes faltam meios para lidar com a pedofilia, que seguramente não é nenhuma utopia nas mais diversas comunidades.

A “A Caça” discute a mitologia da pureza infantil, discurso mobilizado pelos adultos para legitimar todo um sistema cultural e moral baseado numa suposta evolução natural da infância à vida adulta. A infância talvez seja um dos mitos mais cultivados e protegidos da sociedade. Freud chamou isso de "realidade psíquica". Isto não significa desacreditar a vítima, mas entender que as pessoas em geral, e especialmente crianças, podem fantasiar situações.

Dados brasileiros mostram que a maioria dos casos de denúncias de abuso sexual com crianças são falsas. A criança quando muito pequena possui dificuldades para lidar com fantasia e realidade, tanto que no Brasil existe a Associação de Vítimas de Falsas denúncias de abuso sexual.

Quando se aborda a repressão a pessoas são lembrados quase sempre minorias étnicas ou sexuais, mas A Caça narra a perseguição a homem, heterossexual, branco e europeu. Indiferente disso, é essencial sempre uma profunda avaliação de cada situação. Isso não é negar ajuda à suposta vítima, mas a levar em consideração a presunção de inocência. Do contrário o enredo do filme passará a ser real, como já foi no famoso caso da Escola Base que foi fechada em 1994 sob a alegação de abusos a jovens, mas na justiça não houve sustentação. 

Crescimento versus desenvolvimento

A busca pelo desenvolvimento é inerente ao ser humano e aos países. Dentro da economia de mercado, o desenvolvimento econômico é sempre perseguido pelos governos, indiferente de ideologia ou mesmo partido. Mas esses conceito tem sofrido questionamentos ao longo da história. O paradigma do crescimento econômico que prometia melhorar as condições de vida e renda da sociedade contemporânea não se concretizou.

Contribuições dadas por diferentes pensadores ao longo do tempo incorporaram novos concepções até se chegar a designação de desenvolvimento sustentável. Afinal de contas, basear o crescimento da nação apenas ao Produto Interno Bruto nunca foi condizente a elevação da renda, que ocorre somente para uma minoria. Mesmo o Índice de Desenvolvimento Humano, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, possuí deficiências para auxiliar na melhoria da renda, amenizar as desigualdades socioeconômicas, garantir o acesso à saúde e educação de qualidade.

O paradigma do desenvolvimento humano sustentável tem o crescimento econômico como o meio e o ser humano como o fim, como ensina o Ipea. Ainda de acordo com Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada “a riqueza econômica não necessariamente expande as escolhas das pessoas, mas o uso que se faz da riqueza é decisivo, assim como a forma pela qual essa riqueza é criada”. Por fim, o Ipea (1998) cita que as possibilidades e as oportunidades da atual geração são essências para o desenvolvimento humano moderado e sustentável é que irão garantir o progresso socioambiental necessário as próximas gerações.

O conceito de desenvolvimento sustentável está centrado no respeito à necessidade de um desenvolvimento global, que conduza avanço da qualidade de vida a população por meio do equilíbrio econômica, social e ambiental. Porém, enquanto não tivermos um pensamento amplo, decisões importantes e de impacto necessárias para garantir novos investimentos dentro desenvolvimento socioeconômico, não garantirão de fato um novo ciclo de desenvolvimento. 

O Uruguai e o Dia da Família

Apesar do natal ser uma das celebrações mais difundidas no mundo por conta do cristianismo, não significa que todos os países ocidentais e democráticos reconheçam a data pelo viés religioso. Nação exemplo nesse sentido é o Uruguai. Lá uma das datas máximas do cristianismo ocidental virou o Dia da família.

A secularização do calendário por parte do Estado no início do século XX fez mudar o nome da celebração. Mas isso não impede das famílias celebrarem a data. As ruas se enchem de decorações e os shoppings são enfeitados com árvores gigantes. Ao mesmo tempo o costume popular moderno típico que inclui a troca de presentes e cartões e de refeições especiais são mantidas.

A celebração uruguaia é familiar, com direito a fogos de artifício e tradições incorporadas de outros países, como o panettone da Itália e o turrón que vem da Espanha –doce tipicamente feito com mel, clara de ovos e amêndoas. A gastronomia na noite da véspera ao Dia da Família fica centrada em um tradicional assado. Além de carne, tem queijo provolone, verduras assadas como o morrón vermelho (pimentão) e a papa doce (batata-doce). A bebida é a chamada médio e médio, que consiste em uma mistura de vinho espumante doce e vinho branco seco.

Como Estado laico, o país não tem nenhum feriado religioso, mas ao que tudo indica permanece fraterno. O mesmo ocorreu com outras datas festivas. A Semana Santa, por exemplo, foi transformada na Semana do Turismo. Essas medidas, a exemplo de outras aprovadas no Uruguai, mostram que essas leis progressistas fazem de fato o país ser a “Suíça” da América. O Uruguai é um país com 3,5 milhões de habitantes e vive um ritmo calmo de uma população madura. Somado a isso, o país rio-platense vive ainda em um contexto político-histórico que permite ser vanguardista em várias iniciativas, ao mesmo tempo é possível compreender a causa de tantos obstáculos para aprovar medidas parecidas no Brasil.

domingo, 6 de março de 2016

Trânsito: educar, para salvar vidas

Pelas contas da Organização Mundial de Saúde, morrem no trânsito cerca de 1,2 milhão de pessoas por ano no mundo. São 34 mil só no Brasil, o equivalente a 85 Boeings 747 lotados. Essa guerra só tende a piorar, pois segundo as estatísticas, o trânsito será a terceira causa de mortes no país a partir de 2020.

Educar e multar são duas importantes tarefas, que pela lei e pela lógica, devem ser concomitantes. Fui defensor de multar, pois é uma forma respeitar quem faz o correto. No Brasil, a sociedade e poder público, em sua grande maioria, defendem apenas que as multas de trânsito são uma maneira de educar. Que o motorista multado não vai repetir o erro por sentir a dor no bolso.

Alguns afirmam que ver a placa, mas não o guarda por perto, é que leva o sujeito a desrespeitar a legislação. Isso apenas mostra que o processo pedagógico está errado. A punição com multas e pontuação nas carteiras de habilitação apenas camuflam a faltam de investimentos em educação no trânsito. As multas, a longo prazo passam a ser enquadrados nos orçamentos de quem as recebe e desvinculá-las das razões que as fizeram ser definidas pelo Código de Trânsito Brasileiro.

As campanhas pedagógicas mais relevantes são promovidas apenas durante a Semana Nacional do Trânsito. Embora, o Código de Trânsito Brasileiro preveja no artigo 76 que "a educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus". Mas, são raras as instituições de ensino que possuem disciplinas ou mesmo ações nesse sentido. As atividades mais comuns são desenvolvidas na educação infantil, esporádicas no ensino fundamental e inexistentes no ensino médio.

Sem entrar no mérito da chama "indústria da multa", o fato é que a arrecadação tributária das multas vicia os cofres públicos e transforma cada sinal de trânsito numa potencial máquina arrecadadora, sem uma preocupação essencial com a vida. Ainda é importante ressaltar que a partir desses aspectos, o poder público falha também em oferecer vias e ruas em condições aceitáveis que justifiquem a repressão.

Se fossemos um povo realmente civilizado, não precisaríamos nem de placas, nem de guardas. Se a preocupação fosse reduzir a violência nas ruas, a educação deveria ser a arma principal dos investimentos. O Código Nacional de Trânsito foi concebido como instrumento educativo. Neste aspecto, educação se entende como processo de interesse e empenho do aprendiz na aceitação e cumprimento das normas que regem a convivência.  Mas o que se percebe mesmo é que a educação não passa de uma impressão de folhetos periódicos e o restante dos recursos usados nas mais diversas áreas, menos no trânsito. Educar vai além de campanhas educativas. Respeitar as leis implica em renovar os valores pessoais.